segunda-feira, 14 de julho de 2014
sábado, 21 de junho de 2014
A moral dos prazeres na perspectiva grega
Joel da
Silva Ribeiro
É
possível compreender em História da
sexualidade que, de acordo com Foucault, a moral dos prazeres se
apresentara de diversas formas, em diferentes contextos no decorrer da
história. Contudo, na
lacuna que separa a vida sexual do homem contemporâneo daquela praticada pelo homem
grego clássico, a prática do amor, independente de sua época, estivera ligada ao
autoconhecimento. Isto é, para Foucault, a atividade sexual, de um modo ou de
outro, mantém relação direta com a questão moral e epistemológica do homem, na
medida em que se tornara meio para a verdade enquanto conhecimento de si.
Segundo Foucault, no cristianismo, a sexualidade enquanto “chão epistemológico”
que inquiri sobre a moral, restringe-se na relação homem mulher. Nesse sentido, o conhecimento
de si seria possível pelo amor à virgindade, à pureza feminina e à procriação
da espécie humana. No entanto,
a moral dos prazeres em contexto grego, em comparação ao modelo ascético
monástico, parece revestir-se de uma preocupação mais austera e sistemática em
relação ao conhecimento de si por meio das práticas afetivas. Na interpretação
de Foucault, isso decorre do fato de ter existido na cultura grega clássica uma
liberdade muito grande a respeito do tema, o que possibilitou uma investigação
mais aprofundada sobre o amor e suas implicações na esfera moral,
epistemológica e até mesmo ontológica. Segundo Foucault, diferente de como
acontece nas sociedades de berços cristãos e judaicos, para os gregos, o
autoconhecimento, oriundo da prática amorosa, estava voltado para a relação homossexual.
Para justificar sua posição, Foucault aponta o Fedro e o Banquete de
Platão como literaturas que discorrem sobre a erótica do amor entre os rapazes.
Logo, se aceitarmos que a
relação afetiva implica terminantemente em questionamentos que aspiram ao
conhecimento de algum objeto, como Foucault interpretara a moral dos prazeres
em toda história da humanidade, então é possível dizer que esses diálogos de
Platão serviram como pano de fundo para toda sua epistemologia posterior. Os
diálogos encontrados na literatura platônica, que apontam os amores frustrados
e desonrosos, nos quais o sujeito é corrompido moralmente e fisicamente, como
problemas a serem resolvidos na relação entre os rapazes, se apresentam, aos
olhos de Foucault, como a finalidade suprema da prática sexual. Com efeito, a resolução de
tais problemas e a busca de um relacionamento sexual que emancipe na mesma
proporção o sujeito amado e o sujeito amante, por parte daquilo que Foucault
chama de conveniências, práticas da corte e jogos reguladores do amor, implicaria em uma epistemologia, na qual
aquele que se relaciona seria constantemente e ao mesmo tempo, sujeito e objeto
de desejo. Sendo assim, para Foucault, existiria nos gregos, mais do que
naqueles que os sucederam, uma necessidade de entender o amor em seu mais
profundo princípio. Ou seja, os gregos se esforçaram como nenhum outro povo no
intuito de descobrirem qual a forma de relação afetiva capaz de possibilitar
respectivamente conhecimento e cuidado de si. De acordo com Foucault, ao contrário do que ocorre
na cultura cristã, na qual há sempre uma preocupação com a questão da simetria
entre o homem ativo e a mulher passiva, nos gregos o que se problematiza é modo
como duas pessoas se relacionam. Nessa perspectiva, a pergunta não seria quem
se relaciona, mas o modo como fazem isso. Ou seja, se o relacionamento implica
ou não em autoconhecimento e por conseqüência emancipação do individuo. A
ligação entre amor e conhecimento de si na Grécia clássica se acentua ainda
mais no Platão apresentado por Xenofonte no Banquete.
Nesse contexto, o discípulo de Sócrates discursa sobre a existência de dois
tipos de amores, a saber, o amor da alma e o amor do corpo, no qual o ultimo é
desprezado em relação ao primeiro. Sendo assim, seria preciso certo castramento
dos desejos e dos apetites sexuais em nome de uma espécie de amor amparado não
mais pelo Eros, mas pela Philia. Como se pode ver, no amor
platônico apresentado por Xenofonte, a amizade toma o lugar da prática sexual e
faz migrar o problema da questão moral para a questão ontológica. Isto é, na perspectiva do Platão que estamos
tratando, não se pergunta simplesmente o que é o verdadeiro amor, mas o que é o
verdadeiro amor em seu ser mesmo. Não se trata de uma interrogação sobre amor,
mas sobre ser do amor. Contudo,
embora Platão tenha traçado essa definição entre o mau amor do corpo e o belo
amor da alma, Foucault entende que não se trata da exclusão do corpo
caracterizar o amor para os gregos.
Segundo o filósofo francês, por mais desprezado que o corpo seja, em Platão,
ele tem seu papel em relação ao belo. Dizendo de outro modo, o corpo seria o
estágio mais primitivo da purificação da alma do individuo. Logo, na evolução do homem platônico, teríamos
sucessivamente: o belo corpo, os belos corpos, a alma, o que existe de belo nas
ocupações, as regras de conduta, o conhecimento e finalmente o belo separado de
qualquer coisa. Segue-se disso, que o problema não seria exatamente o amor
pelos corpos, mas sim a estagnação numa etapa primitiva do amor, digna, segundo
Platão, das almas acorrentadas na caverna, que por tal condição se encontrariam
impedidas de se constituírem senhoras de si mesmas. Portanto, na teoria platônica, o modo incorreto de
se praticar o amor resultaria em uma limitação epistemológica, na qual ficar
preso ao outro pelo corpo equivaleria a não chegar ao conhecimento verdadeiro. Na
leitura de Foucault, o mérito dos gregos, no que tange ao amor, é que eles
resolvem a dificuldade do objeto de prazer, pois conseguem concatená-lo com um
modelo de verdade, capaz de tornar o individuo
passivo, que “deveria” ser submisso na relação, como ocorre com a mulher na
monogamia ocidental, forte e viril, ao se tornar objeto de desejo do mestre que
a partir de então passará a guiá-lo. Sendo assim, a literatura grega, sobretudo
a teoria de Platão, oferece um conteúdo verdadeiro para o amor, ou seja,
fundamenta um amor que pode ser a partir dele mesmo paiderastes como philerastes.
Em outras palavras, um amor que ensina e ao mesmo tempo é amigo. Nessa perspectiva, o mestre ensina ao rapaz o que é a sabedoria no
lugar de submetê-lo a uma relação, como ocorre no caso de Alcebíades, no qual
os belos jovens são assediados em troca dos favores e da sabedoria do mestre. Porém,
o Sócrates descrito por Platão seria amado tão somente pela virtude de
conseguir resistir aos belos rapazes e não por sua estética ou utilidade. Sendo
assim, Sócrates estaria mais relacionado com a figura do pai, do mestre e
daquele que exerce a virtude, do que com um objeto físico de desejo. Segue-se disso, que o amor relacionado com o mau, a
fidelidade, a monogamia, a exclusão do parceiro do mesmo sexo são heranças da
moral judaica cristã que, com exceção do rigor, da estratégia, da quantidade e
da oportunidade, nunca estiveram presentes em solo grego. A cultura ocidental,
relata Foucault, teria se apropriado de fatos isolados na historia para
reprimir a liberdade sexual. Conclui-se a partir disso que a rigorosidade na
moral sexual grega, que por sua vez possibilitou todo rigor na moral judaico-cristã,
em nada se parece com a repressão sexual ocidental, mas sim com uma moral
voltada ao sexo que permite a emancipação do individuo enquanto sujeito e ao
mesmo tempo enquanto objeto de desejo, para o qual o amor se apresenta em forma
de amizade e sabedoria propiciadas pelo mestre, que por sua vez ocupa o papel
do enamorado, na medida em que conduz o outro até a verdade. Nesse sentido, é
possível detectar na cultura grega clássica, por meio das relações entre os
rapazes, os elementos mais importantes da ética sexual, que contraditoriamente,
mais tarde seriam rejeitados pela sociedade ocidental em nome da necessidade de
uma economia dos prazeres.
segunda-feira, 28 de abril de 2014
Entre Normalidade e Legalidade
Marcos Guilhen Esteves
As
relações entre legalidade e normalidade são mais estreitas do que
se costuma imaginar. Não se resumem aos casos de interdição,
internação compulsória ou medidas de segurança em matéria penal.
É certo que tais hipóteses são bastante elucidativas para
demonstrar o potencial de absorção pelo direito de padrões de
normalidade que funcionam no corpo social. No entanto, há formas
mais sutis de se impor a normalidade por meio da legalidade.
O
conceito foucaultiano de “norma” já soa, à primeira vista,
bastante peculiar para o profissional com formação jurídica. Nessa
área, a norma é geralmente identificada com a lei positiva, isto é,
dispositivo legal que seguiu os trâmites constitucionalmente
previstos para a elaboração de leis. A definição de norma é dada
a partir de um critério formal: se houver seguido o rito previsto, o
texto será dotado de “força normativa” (observância
obrigatória e inescusável). Do ponto de vista material, costuma-se
afirmar que o objetivo da norma jurídica é regular as condutas
humanas. É possível vislumbrar aqui uma aproximação com a ideia
foucaultiana de norma, mas acredito que o veículo jurídico mais
eficaz para impor a normalidade não é tanto o conteúdo da lei e,
sim, a interpretação que se dá a ela.
Parece
ser uma tendência cada vez mais forte na técnica legislativa a
utilização de conceitos vagos, abertos, imprecisos. Antes, era
comum que os primeiros artigos dos textos legais fossem dedicados às
definições consideradas importantes para sua adequada compreensão.
Hoje, considera-se que o ideal seria fazê-lo somente em casos de
extrema necessidade, pois a positivação do conceito impede que a
lei acompanhe as “evoluções sociais”, de modo que ela se torna
cada vez mais anacrônica. Exemplo disso é a “família”. Ao
invés de se pretender definir família, recomenda-se simplesmente
que se coloque o termo na lei.
Se,
por um lado, esse tipo de atitude permite uma maior discussão
conceitual, por outro, a imprecisão semântica cria um campo
bastante eficaz para funcionar como instrumento normativo (na acepção
foucaultiana). A polissemia de certos termos pode ser utilizada tanto
para uma argumentação mais “progressista” quanto para uma mais
“conservadora”. Ademais, não há como negar que, em vários
casos, a lei constitui o resultado de lutas sociais extremamente
importantes. A previsão legal, pura e
simples, não representa qualquer transformação social. Isso só
ocorre quando o reconhecimento de direitos é acompanhado de lutas e
movimentos aptos a gerar uma tomada de consciência na sociedade.
O
direito de família é um verdadeiro arcabouço de padrões de
normalidade. Poucas áreas jurídicas são tão elucidativas nesse
ponto. Não é preciso nem discutir casamento homoafetivo. Basta
pensar que, até pouco tempo atrás, pessoas solteiras estavam
excluídas do conceito de família, o que lhes retirava várias
garantias. Além do direito de família, pode-se mencionar a fatídica
figura do homem-médio, tão criticada e ao mesmo tempo tão
utilizada como parâmetro de julgamentos supostamente “legais”.
É
por isso que, segundo Foucault, deve-se colocar o direito sempre sob
forte preocupação. Por ser instrumento chamado constantemente a
participar da “arbitragem social”, o conteúdo das normas
jurídicas deve ser constantemente debatido. Isso para evitar, tanto
quanto possível, que a lei funcione como norma e, sobretudo, para
que o reconhecimento de direitos não se torne mera demagogia.
segunda-feira, 14 de abril de 2014
Por uma política do inumano
Alisson Ramos de Souza
Tenho em vista o debate, realizado em
1971, entre Michel Foucault e o linguista Noam Chomsky (disponível aqui: https://www.youtube.com/watch?v=3wfNl2L0Gf8) para a colocação da seguinte questão: se não
existe tal coisa chamada ‘natureza humana’, então, qual é o propósito de uma
militância política? Essa questão é, de certo modo, uma reformulação e
desdobramento daquela que Foucault, provocativamente, dirige a Chomsky: “então
é em nome de uma justiça mais pura que você critica o funcionamento da
justiça?” Chomsky acredita(va) numa natureza humana que era impedida de se
realizar, de concretizar seu potencial criativo, ter reconhecida sua dignidade,
liberdade etc., devido a constrangimentos advindos de formas econômicas,
políticas e sociais repressivas. Tais formas seriam injustas, pois, apesar do
Estado – em seus mecanismos legais – apresentá-las como sendo justas, haveria
um descompasso entre a justiça atual e a ‘justiça ideal, entre o ser e o dever-ser.
Existiria,
portanto, uma inadequação entre a essência do homem – que em seu verdadeiro eu é bom, justo, criativo etc. –, e o
modo como ele vive, sobretudo, na atual formação social, a capitalista; essa inadequação,
no jargão marxista, é chamada de ‘alienação’. Aliás, marxistas e sartreanos (e
o próprio Sartre) tenderam a enxergar, com boa dose de má vontade, no livro As palavras e as coisas, publicado em
1966, que, entre as várias noções e questões abordadas, traz o tema da ‘morte
do homem’, um manifesto contra o humanismo e a retirada do homem de seu posto
de sujeito histórico. Assim, para seus detratores, o anúncio da morte do homem
inviabilizaria qualquer ação política, uma vez que a inexistência de uma
essência humana tornava sem sentido uma transformação da sociedade. Em certa
medida, creio que tenha sido essa a intenção do filósofo francês.
Ora,
o homem, para Foucault, não é um ser incompleto, visto que ele nem sequer
existe, ou, pelo menos, nem sempre existiu. A história que ele julga ser sua
lhe é anterior, e sua existência concreta é atravessada pelas positividades das
ciências humanas que o criam: biologia, economia e filologia. Os limites de sua
existência são, assim, determinados por uma episteme
bem específica, surgida em meados do séc. XIX. E dada a finitude que funda seu
conhecimento e sua existência, ele está condenado a morrer. Isso muda
radicalmente o modo de se fazer política, ou melhor, de militar politicamente,
uma vez que não faz mais sentido lutar por aquilo que perecerá. Se me é
permitido uma metáfora, seria como medicar um paciente em estado terminal. Dessa
feita, o problema passa a ser inteiramente outro: não mais mudar uma sociedade injusta
que desfigura o homem; pelo contrário, trata-se agora de apagar seu rosto, isto
é, de superar sua forma.
Entretanto,
Foucault reconhece que o Estado moderno – que se estabelece com o capitalismo –
age de modo repressivo, mas, em sua concepção, não existe uma classe exclusiva
que detém o poder, exercendo-o através do Estado, e este não pode ser definido
como uma entidade centralizada. O poder percorre todo o tecido social, não
sendo portanto um privilégio adquirido ou conservado da
classe dominante. Ele é menos uma
propriedade do que uma estratégia, um exercício, e seus
efeitos não são atribuíveis a uma apropriação, mas a disposições, manobras, táticas,
técnicas, funcionamentos; ele não está,
rigorosamente falando, localizado no aparelho de Estado, pois o
próprio Estado aparece como efeito de conjunto ou resultante de engrenagens e
de focos que se situam num nível bem diferente e que constituem por sua conta
uma ‘microfísica do poder’; e nada tem a ver com superestrutura; não se inscreve
na ordem de uma causalidade molar, sua ‘natureza’ é um muito mais molecular,
microscópica. E, finalmente, não pode
ser abolido, visto que o poder não existe, pelo menos não a despeito de
práticas e relações.
A
colocação inicial da qual não existe uma natureza humana nos leva a um impasse:
se o homem não existe – essencialmente falando –, mas, ao mesmo tempo, ele é
reprimido pelas instituições que o atravessa, então, por que ou pelo que lutar?
Na verdade, não existe uma contradição nisso. Sua luta deve ser empreendida
contra as instituições que fabricam e modelam sua subjetividade, que normatizam
sua existência, instâncias de saber-poder. Se o homem deve resistir, insurgindo-se
contra o atual sistema, não é para readequar sua essência à sua existência,
mas, creio eu, para tornar essa última mais tolerável. Como lembra Foucault,
onde há poder, há também resistência.
As
revoluções são tidas como os acontecimentos políticos por excelência, contudo, que
tipo de revolução seria desejada? Certamente, não uma que tivesse um programa,
que se inscrevesse na ordem da causalidade, com uma imagem prévia do futuro ou
do que é ser homem. As revoluções operam um corte, seccionam
a imagem do atual, provocando uma ruptura, que nada tem a ver com continuidade
histórica, com tomada de consciência, ideologia etc. As grandes utopias
emancipatórias jamais representaram um grande risco para o status quo, visto que, apesar de se colocarem como um possível, são
sempre uma alter-nativa já presente, isto é, ‘o Outro’ do atual, são sempre um dèjà-là.
Para
concluir, tomando por empréstimo o termo de seus contemporâneos, Deleuze e
Guattari, o que seria desejado seria uma microrrevolução, uma revolução
molecular, sem sujeitos. Trata-se assim não mais de re-conhecer os direitos –
como se eles já existissem a priori
–, mas de inventá-los. Não mais utopias, mas heterotopias. Da soteriologia
cristã ao rousseaunismo marxista, o homem é sempre visto como alguém que
precisa ser salvo, seja do pecado original ou do jugo do capital, acreditando
que com a superação das formas que o sujeitam – o mundo terreno ou o modo de
produção capitalista –, ele finalmente estaria em concordância consigo mesmo. O
que quis advogar, aqui, tendo o pensamento de Foucault como referência, é que o
homem não precisa ser salvo, exceto da tentação de afirmar aquilo que ele não
é.
O conceito de discurso: duas abordagens
Yuri José Victor Madalosso
Deixo claro aqui que o texto a
seguir não é, de forma alguma, uma tentativa de conciliação ou mera comparação,
mas uma excitação ao debate filosófico pontuado entre duas tradições de
pesquisa diferentes mas igualmente instigantes e, julgo eu, interessantes para
as perspectivas de nosso grupo de pesquisa. sou iniciante em Foucault, e posso
cometer graves deslizes que serão corrigidos com as sugestões dos leitores e
mais leituras minhas.
Refiro-me às obras e ideias de dois
autores. Em primeiro lugar à Michel Foucault, considerado por muitos um
componente "volátil" da filosofia dita continental, um estudioso
deveras "inrotulável": estruturalista, pós-estruturalista,
pós-moderno, historiador, etc. Entender seus escritos e seus objetivos
teóricos, suas ferramentas e estratégias de pesquisa, a estruturação não-linear
de seu percurso intelectual, entre outras especificidades, são verdadeiros
desafios e horizontes inexplorados tanto para nós, pesquisadores iniciantes de
filosofia, quanto para quem já se insere nas diversas e mais atuais discussões
filosóficas. Em segundo lugar, Edmund Husserl, "pai" de uma das
maiores e mais controversas correntes de pensamento contemporâneas: a
fenomenologia. Sua obra é peça chave para entendermos muito do que se produziu
em filosofia desde o começo do século XX. Consagrado como influenciador do que
muitos chamam hoje de "filosofia continental", no entanto, seu
programa de investigação filosófica, os debates em que se insere, a estrutura
lógica de sua obra nos remetem a discussões familiares a filósofos analíticos e
muitas de suas teses são objeto de atuais estudos que o situam em um grande
debate em que se inserem Gottlob Frege, Georg Cantor, e por aí vai.
Revela-se, contudo, após vermos
estes pormenores históricos destes autores, um interesse e exaustiva
investigação acerca de como os discursos se estruturam e se perfazem (ou se
devem perfazer), principalmente no que tange ao discurso científico. Neste
setor, situam-se as obras História
da Loucura, de Foucault e Investigações
Lógicas, de Husserl. O primeiro autor quer entender a constituição de um
discurso científico que se institucionalizou na modernidade: o da psicologia. O
segundo, por sua vez, quer propor uma nova "instituição" aos
fundamentos de um discurso que se estabelece a passos rápidos como ciência: a
lógica. Pois bem: o que buscam estes autores ao se depararem com estes
discursos?
A análise das estratégias e
práticas que subjazem os conceitos e métodos clínicos da psicologia, de como se
procede o sujeitamento de certos discursos e do objetos destes mesmos, dentro
do campo psiquiátrico, diferem em grande parte de uma tentativa de descrever as
condições de possibilidade de uma "teoria das teorias", uma
"nova lógica", de um fundamento rigoroso, objetivo e preciso de um
discurso científico que pretende ser arcabouço e estrutura para outros
discursos científicos. Confrontam-se, aqui, os objetos
"razão/desrazão" e "expressão/significação/objeto": o
"fundamento", o modus
operandi que leva ao objeto
de investigação, aqui, é o desconstrução, análise e "desobstrução",
por assim dizer, e, de um outro lado, de construção, síntese sistemática e
descrição científica. De um lado, vemos o trabalho arqueológico cujo objetivo é
a "escavação" das práticas políticas, estéticas, econômicas que
tornam hegemônicos discursos, articulações teórico-conceituais situadas em um
contexto histórico determinado. De outro, vemos uma descrição objetiva e
teorética de como se fundamenta epistêmica e semanticamente um discurso
científico - e mais: inteligível. A significatividade do discurso lógico
aparece como a-histórica, e a demarcação/territorialização entre o fatual e o
lógico é essencial: há fronteira clara entre o discurso objetivo e discurso
subjetivo, entre discurso fundador e fundado, etc.
Conforme a isto, percebamos que as
concepções dos dois autores tentam ultrapassar a construção de uma semiótica da
linguagem. Embora nos pareça que Foucault tenha acentuado o "uso e
práticas" da linguagem e Husserl o seu significado, o norte de
investigação, de compreensão, da linguagem enquanto linguagem utilizada por uma
ou várias ciências é, nessas obras, uma compreensão pelo "originário"
do discurso psiquiátrico ou pelo discurso lógico-matemático. A questão é como
se torna fortuito ao cânone de uma ciência ou se torna possível tanto a
manutenção político-histórica de um determinado discurso ou sua confirmação ou
fundação como discurso ele mesmo fundador e sistematizado.
domingo, 13 de abril de 2014
Michel Foucault e o esgotamento da noção de revolução
Lorena de Paula Balbino
Foucault
afirma em entrevista que a política situa-se, desde o século XIX, em relação a
revolução. Na ocasião dessa afirmação o filósofo fazia referência
especificamente a Revolução Francesa. Esse evento em especifico tornou-se no
interior da história política algo que Kant identificou como signo do
progresso. O retorno da revolução torna-se, a partir desse evento, um problema
político no que se refere a seu caráter desejável. Diante disso, Foucault
constata o seguinte: “Mas acho que fazer política sem ser um político é tentar
saber com a maior honestidade possível se a revolução é desejável. É explorar
este terrível terreno movediço onde a política pode se enterrar” (FOUCAULT,
2008, p. 240).
Mas
o que significa desejar a revolução e preocupar-se com o seu retorno? Primeiramente
pensar a revolução em termos de seu retorno significa ter uma concepção específica
de tempo. Essa concepção implica entender que a revolução imprime uma ruptura
no tempo marcando-o permanentemente e abrindo o caminho em direção ao
progresso, certamente então uma concepção teleológica do tempo. Foucault, como
diagnosticador do presente, entendia a tarefa filosófica como crítica da
atualidade. Seu pensamento rompeu com a noção teleológica de tempo ao
empreender a sua “ontologia do presente” e ao recusar-se a ser cúmplice da
figura do intelectual representante da consciência universal do povo. A esse respeito afirma Foucault: “Sonho com o
intelectual destruidor das evidências e das universalidades, que localiza e
indica nas inércias e coações do presente os pontos fracos, as brechas, as
linhas de força; que sem cessar se desloca, não sabe exatamente onde estará ou
o que pensará amanhã, por estar muito atento ao presente” (FOUCAULT, 2008, p.
242).
A
concepção de história do filósofo francês e a maneira como escreve, por
exemplo, sobre o cuidado ético nos gregos, a disciplina, a loucura e seu enclausuramento,
se inscrevem na atitude crítica de Foucault ao ver a história como
acontecimento em contraposição a noção de evento. Além da ruptura com a noção
teleológica de tempo e a concepção marxista de história o trabalho de Foucault
implica pensar as relações entre verdade, saber e poder tomando como horizonte
de reflexão a crítica do que somos.
Desejar
a revolução implica estar de acordo com determinadas estratégias políticas
referentes a concepção de história, poder e tempo que estão implicadas na noção
de revolução. Desse modo, parece-me que a noção de revolução supõe uma
vanguarda intelectual que tem o papel de revelar verdades e guiar a consciência
do povo. Essa ideia do papel do intelectual e sua posição histórica, como
personalidade individual da universalidade obscura que era o proletariado, foram
questionadas pelo filósofo em diversas de suas entrevistas (FOUCAULT, 2008, p. 8).
Para Foucault não há mais uma vanguarda intelectual que teria por objetivo
atuar na conscientização daqueles que lutam dentro de aparelhos como os
sindicatos, os partidos, os movimentos sociais, etc. Foucault diagnostica que
há muito o papel do intelectual mudou graças a novas relações entre teoria e
prática e que hoje o intelectual atua em setores determinados da sociedade.
A
forte imagem do intelectual deriva da crença na necessidade de
representação e que tem suas raízes nas lutas contra o poder e na
indispensabilidade em conhecer todas as suas formas de atuação. É possível que
a forma como o marxismo, por exemplo, compreende o poder seja insuficiente.
Foucault aponta que não só a análise sobre os aparelhos de estado não esvaziam
as formas de exercício do poder como a ideia de que o poder se detém (e não se
exerce) por algo totalizante como o estado pressupõe uma luta global. Em sua
análise Foucault procurou descentralizar o problema do poder e passar para o
exterior do Estado a fim de encontrar as tecnologias de poder, como demonstra
em seu curso “segurança, território, população”, e procurar ver através dessas
tecnologias como se constituía “campos de verdade com objetos de saber”, é
assim que ele chega, por exemplo, a noção de governamentalidade (FOUCAULT, 2008a,
p. 157-158).
Ao
descentralizar o problema do poder Foucault nos mostra como a noção de Estado
foi supervalorizada e reduzida a certas funções de desenvolvimento e relações
de produção que o fizeram tornar-se o principal alvo de ataque ao poder e um
espaço a ser tomado. No entanto, alerta-nos Foucault, o Estado: “não teve essa
unidade, essa individualidade, essa funcionalidade rigorosa e direi até essa
importância. Afinal de contas, o Estado não é mais que uma realidade compósita
e uma abstração mistificada, cuja importância é muito menor do que se
acredita”. (FOUCAULT, 2008, p. 292). Descentralizar o poder e não tomar o
Estado como alvo único e principal a ser questionado requer pensar nas
estratégias de lutas contra o poder. Foucault observa que as lutas
desenvolvem-se contra formas particulares de poder em que ao se localizar um
foco, dar nome a ele e dizer quem o exerce constitui uma inversão de poder. É
por isso que: “Se discursos como, por exemplo, os dos detentos ou dos médicos
de prisões são lutas, é porque eles confiscam, ao menos por um momento, o poder
de falar da prisão, atualmente monopolizado pela administração e seus compadres
reformadores” (FOUCAULT, 2008, p. 76).
É
assim, que seu trabalho no G.I.P. (Grupo de Informação sobre as Prisões) foi um
esforço para demonstrar a necessidade de se falar por si mesmo e demonstrar o
“erro” da representação. É nesse sentido que Deleuze afirma que Foucault nos
ensinou sobre “a indignidade de falar pelos outros”. E é nesse contexto que o
filósofo francês afirma em conversa com Deleuze do ano de 1972: “Ora, o que os
intelectuais descobriram recentemente é que as massas não necessitam deles para
saber, elas sabem perfeitamente, claramente, muito melhor do que eles, e elas o
dizem muito bem. Mas existe um sistema de poder que barra, proíbe, invalida
esse discurso e esse saber”. (FOUCAULT, 2008,p.71)
Se
há, portanto, um sistema de poder que barra e invalida determinados discursos
qual é então o lugar deles? Certamente o lugar de desvio, o que Foucault, em
contraposição a noção de utopia, chama de heterotopia. A heterotopia é o lugar
dos desviantes da norma, daqueles que estão em crise, é, portanto, um
contraposicionamento no interior da sociedade. A noção de heterotopia assume
formas variadas que não corresponde a um aspecto universal e que talvez não se
esgote em um número limitado, ela também pode desaparecer e reinventar-se
através do tempo. A noção de heterotopia vai contra a transcendentalidade da
utopia e evidencia a impossibilidade da universalidade como espaço último da
sociedade, a universalidade é a utopia ocidental que pretende um posicionamento
sem lugar real (PASSETI, 2003, p.46).
Acreditamos
que a ideia de revolução pressupõe uma concepção de tempo, de história e de
poder que desejam um projeto assentado na ideia de uma libertação total.
Foucault tornou explícito em seu trabalho a impossibilidade de uma libertação
total uma vez que não há um poder único que estrutura e perpassa toda a vida e
sim diferentes formas de racionalidade política, diferentes dispositivos de
poder sobre os quais é necessário criar especificas formas de resistência. É
desse modo, que Foucault demonstra que a noção de revolução não serve mais ao
pensamento político-filosófico como instrumento para pensar o presente.
Referências:
CANDIOTTO, C. Política, revolução e
insurreição em Michel Foucault. Revista de Filosofia: Aurora), v. 25 , 2013.
FOUCAULT, M. Outros Espaços. In: Motta,
Manoel Barros da. (org). Michel Foucault:
Estética, literatura e pintura, música e cinema. Rio de Janeiro: Forense
Universitária, 2006. (Ditos e Escritos).
______________.
Microfísica do Poder. Rio de Janeiro: Edições Graal, 2008.
______________.
Segurança, Território, População. São Paulo: Martins Fontes, 2008a.
______________. O
governo de si e dos outros. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2011.
PASSETTI, E. Vivendo e
revirando-se: heterotopias libertárias na sociedade de controle. Verve (PUCSP),
São Paulo, v. 4, 2003.
sexta-feira, 11 de abril de 2014
Biopolítica, medicalização e risco
Ricardo Lopes Ferreira
Atualmente no Brasil
tem-se uma política que aparenta ter uma preocupação muito grande com uma
questão, sem dúvida importante que é a inclusão social, é possível perceber um
movimento pelo qual pessoas portadoras de necessidades especiais: crianças e
adultos são integrados, à escola dita “normal” e ao mercado de trabalho através
de leis que vão garantir esse acesso a tais pessoas. Essa medida é positiva,
entretanto o objetivo não é realizar uma análise dessa questão, mas sim
considerar o que pode parecer certo paradoxo em relação a algumas situações com
as quais essa política se depara.
Há algumas semanas foi
noticiado nos telejornais, rádio, internet e jornais impressos o caso de uma
professora do interior de São Paulo que após ser aprovada em concurso público
não pôde assumir o cargo pelo fato de ter sido reprovada no exame médico, o que
assusta nisso é que o impedimento para assumir o cargo público se deve porque
ela, segundo laudo médico baseado em dados da Organização mundial da saúde
(OMS), foi caracterizada dentro de um quadro de obesidade mórbida, uma situação
realmente difícil de ser entendida, mas o que deve ser ressaltado é que este
não é um caso isolado e quando se faz uma pesquisa, que nem precisa ser muito
rigorosa ou minuciosa, porque é só procurar na internet que se encontram vários
casos semelhantes e um deles chama a atenção, uma mulher foi impedida de
assumir um determinado cargo público por um fato ainda mais assustador, o fato
de ter tido câncer de mama, ou seja, ela ficou doente e obteve a cura da
doença, mas ainda assim só garantiu seu direito por vias jurídicas. É o que
acontece em todas essas situações, a pessoa tem que questionar a decisão do
Estado através de meios jurídicos.
Todo esse processo é
complexo, mas um dos paradoxos que podem ser apontados é que, partindo do que
foi o slogan das propagandas do Estado Federal por algum tempo, a saber:
“Brasil um país de todos”, pode-se concluir que quando se trata de trabalhar na
esfera pública o slogan deveria ser completado com o termo “os saudáveis”.
Outro aspecto paradoxo é que essas doenças são motivo de preocupação biopolítica
para o Estado, por isso existem mecanismos que tem a finalidade de medicalizar
essas doenças, isto é, a medicina se caracteriza por um trabalho que não é
apenas curar a doença já estabelecida, mas também agir de forma preventiva para
evitar ou amenizar a possibilidade da doença, buscando gerenciar os riscos que
podem causá-la.
Para Foucault esse é um
dos processos que leva ao que ele chama de “sociedade de normalização” onde a
biopolítica que tem como instrumento a medicina elabora uma norma da saúde à
qual serão referidos todos os comportamentos e estados de saúde, isso é o que
daria origem a esses mecanismos de exclusão que tem como objetivo oferecer
proteção a alguns riscos, como exemplo, os casos tomados acima revelam uma
racionalidade técnico-burocrática para evitar que o Estado assuma o risco de
contratar um trabalhador que esteja doente ou que comporte em si a
possibilidade de vir a ficar doente, representando com isso custos, afastamento
do trabalho etc., mas isso não é uma atitude específica da esfera pública, na
iniciativa privada também ocorre, talvez seja mais fácil a ela esconder o fato?
É difícil responder, o importante é considerar que existe uma legislação e leis
que em tese, permitem ao setor público não contratar uma pessoa doente. Esse é
um problema que mostra uma contradição em relação ao que são alguns dos
objetivos dessa política, ou seja, essas leis que protegem o Estado excluem
alguns indivíduos, mas e a Política de inclusão social? É importante
compreender que essa sociedade visa não correr riscos ou minimizá-los o máximo
possível, isso traz consequências.
Bom
pessoal esse texto é o apontamento para uma pesquisa, portanto fiquem à vontade
para criticar, comentar e recomendar algumas leituras. Obrigado.
quarta-feira, 9 de abril de 2014
Crônica de uma morte anunciada
Alisson
Ramos de Souza
Em As palavras
e as coisas (1966; 2002), Michel Foucault anuncia a ‘morte do homem’, tal
como Nietzsche havia, cerca de um século antes, anunciado a ‘morte de Deus’.
Com efeito, poder-se-ia afirmar que a morte do homem já era colocada no
instante mesmo que a morte de Deus era divulgada, pois “o homem e Deus pertencem um ao outro, onde a morte
do segundo é sinônimo do desaparecimento do primeiro[i]”.
O homem, diz Foucault,
é uma invenção, uma simples dobra de nosso saber, uma figura que não tem dois
séculos, cuja recente data a arqueologia de nosso pensamento mostra facilmente
e que desaparecerá desde que este
houver encontrado uma forma nova. Para nós, o que subjaz a essa temática
é o esgotamento do cogito, uma vez
que a existência do homem, na passagem da Idade Clássica para a Idade Moderna,
não poderia ser mais deduzida a partir de uma redução transcendental, depurada
de toda experiência, ao contrário, sua existência só pode ser colocada nas
positividades do saber, enquanto um ser finito que vive, que trabalha e que
fala.
Se com “a linguagem clássica como discurso comum da
representação e das coisas” não se tematiza a existência do homem, é porque
esse era um problema que não podia ser colocado, visto que não “era possível
que a existência humana fosse posta em questão por ela própria, pois o que nela
se articulava eram a representação e o ser[ii]”.
Dito de outro modo, representava-se aquilo que era. Foi o surgimento das ciências humanas, na Idade Moderna,
que possibilitou o nascimento desse natimorto, que assume
para si o posto de sujeito e objeto do conhecimento, perdendo-se num mise en abyme, como sugere o quadro las meninas, de Diego Velàzquez, obra
analisada no início de As palavras e as
coisas.
Foucault observa que, com o esmaecimento do discurso
clássico, ocorre uma mutação no solo arqueológico: a história natural torna-se
biologia, a análise das riquezas torna-se economia, e a reflexão sobre a
linguagem faz-se filologia. E o homem, duplo de si mesmo,
empírico-transcendental, fundamento e fundado na representação, é esquartejado,
tendo seus pedaços espalhados na biologia, na economia e, principalmente, na
filologia. É o fim da representação; é a queda da quarta parede. Ele perde seu
papel de sujeito da história, tornando-se tão-somente um espectador olhado,
que, ainda por cima, chega atrasado à peça, pois “o homem só se descobre ligado
a uma historicidade já feita[iii]”,
e é sempre sobre um fundo já começado que ele pode pensar o que lhe vale como
origem, origem essa que se articula com o já começado do trabalho, da vida e da
linguagem. Nesse sentido, a análise de Louis Althusser vai ao encontro da
arqueologia foucaultiana ao afirmar que “a história é um processo; e um
processo sem sujeito[iv]”.
[i] Michel Foucault, As palavras e as coisas: uma arqueologia
das ciências humanas (Tradução de Salma Tannus Muchail. São Paulo: Martins
Fontes, 2002), p.472.
[ii] Ibid., p. 429.
[iii] Ibid., pp. 455-456.
[iv]
Louis Althusser. Posições. “Resposta a John Lewis” (Tradução de Carlos
Nelson Coutinho. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1978), p. 28.
quarta-feira, 26 de março de 2014
Foucault: acerca do Grupo de Informação sobre as Prisões e sua filosofia
Fabio Batista
No início de 1971
Foucault, Pierre Vidal-Naquet e Jean-Marie Domenach iniciaram as atividades do
Grupo de Informação sobre as Prisões (GIP), as quais duraram aproximadamente
dois anos. Para se compreender temas da década 1970 na filosofia foucaultiana,
tais como: poder, prisão, disciplina, devemos levar em consideração a ação
política do GIP? Talvez, não tenho certeza. Por quê?
Ora, se assim
procedermos, ou seja, pondo lado a lado vida e obra talvez estaremos promovendo
um modo de leitura criticado pelo próprio Foucault. Pois, de acordo com ele, na
conferência “O que é um autor?”, ao se estudar um texto há que se desconsiderar
a individualidade daquele que escreve. Não se deve ter em consideração a noção
de autor enquanto fonte originária e fecunda quando se faz a história de um
conceito ou de um tema.
Contudo,
há que se admitir, contra o próprio Foucault, que sua militância no GIP teve um
duplo impacto sobre ele (ainda que parcial). Ela parece orientar suas
pesquisas; e o ajuda na reelaboração da concepção corrente de intelectual.
O
GIP atuou junto aos presos e seus familiares, entre 1971-1972, na procura de pôr
em xeque a prisão enquanto uma instituição intolerável. E por dois anos os
cursos de Foucault no Collège de France exploraram o mesmo tema: a
prisão (Teorias e instituições penais; A sociedade punitiva); e o mesmo em
uma conferência no Brasil em 1973 na PUC-RJ (A verdade e as formas jurídicas);
e também no livro de 1975: Vigiar e punir: o nascimento da prisão. Ou
seja, pode-se observar um paralelo entre a ação política e as pesquisas
acadêmicas de Foucault. No limite um paralelo entre vida e obra.
Da atuação junto ao GIP nasceu uma nova
concepção de intelectual. Até então o intelectual era o intelectual-universal,
o qual defendia valores universais e conduzia os oprimidos e explorados à
liberdade. Lutava contra as injustiças e falava por todos aqueles que,
presumivelmente, não podiam falar. Tal intelectual era o escritor. Para
Foucault era preciso repensar esta concepção. Não mais o
intelectual-universal-escritor, mas, doravante, o
intelectual-específico-técnico. Por exemplo: de acordo com Foucault, passou-se
do escritor Zola ao físico Oppenheimer. O intelectual deveria agir de forma
local e deixar de lado a perspectiva universal. Estar junto a todos aqueles que
lutam, deixando de lado o privilégio hierárquico. E jamais, acima de tudo,
falar pelos outros. Nascia aí o intelectual específico. Pois, específicas se
tornavam as lutas; ainda que não isoladas.
Diante
disto nota-se uma forte relação entre a atuação de Foucault no GIP e sua
filosofia. Portanto, me parece plausível recorrermos a essa atuação para
compreendermos melhor temas e conceitos foucaultianos da primeira metade da
década de 1970. Ainda que tal aproximação, entre vida e obra, não seja
bem-vinda ao próprio Foucault.
quarta-feira, 19 de março de 2014
Foucault: um pensamento marginal
Fernanda Ramos Leão
É possível pensar o
conceito de “margem” sob várias acepções. Há, é claro, seus significados
literais, entre os quais talvez o mais comum seja o geográfico. Assim, podemos
falar sobre as margens de um rio: seus contornos, seus limites. Outro modo bastante
popular é atribuir-lhe um sentido negativo ou pejorativo, usado de modo
sociológico para indicar uma pessoa, grupo ou classe que se encontra
forçosamente excluída, separada, às margens da sociedade. “Pobres são marginalizados”,
por exemplo. Ainda nessa linha, o termo também é associado a indivíduos
criminosos ou considerados vagabundos, delinqüentes, mendigos... “Fulano é um
marginal”, costumamos ouvir. Uma terceira maneira de se pensar a noção de
“margem” ou “marginal” é num sentido positivo, elogioso (ao menos a meu ver ou
a quem, assim como eu, aprecia coisas desse tipo): trata-se da ideia de margem
como fronteira, porém não mais relativa à geografia, mas – de maneira análoga –
simbolizando simplesmente a linha tênue onde se encontram dois ou mais campos,
extensões. É o espaço onde se misturam duas ou mais ideias. É o ponto de
conexão, convergência ou ressonância entre diversos modos de pensar, ou entre
diferentes áreas do conhecimento e que, por essa razão, acaba sendo o ambiente
apropriado, propício e profícuo para a reflexão filosófica. Certamente, é neste
contexto que se delineia e se situa a proposta de Michel Foucault; é deste
lugar que ele nos fala de sua filosofia. Uma filosofia – sem dúvidas –
marginal; uma filosofia de fronteira, com regiões sempre inexploradas ou pouco
exploradas, e por isso mesmo com muitas possibilidades de análises,
hipóteses, descobertas, críticas e estudos. É um modo complexo e múltiplo de
pensamento, que envereda-se por caminhos novos e paisagens desconhecidas, o que
pode ser até perigoso, mas sempre estimulante. Proponho ainda mais um motivo
para predicarmos de “marginal” a filosofia foucaultiana, que decorre justamente
dessa própria característica: em contato com seus textos, notamos rapidamente
que os recortes, problemas e personagens elencados pelo filósofo não são nada
tradicionais, clássicos ou universais. Pelo contrário: seus alvos de investigação
e análise são sempre particulares, “menores”, ou então versam sobre assuntos
que por algum motivo foram ocultados, desprezados ou esquecidos. Dito de outra
forma, Foucault não faz parte do mainstream
filosófico, apesar das eventuais “modas” que, vira e mexe, acabam sempre rondando seu nome e suas ideias. Assim, sua
obra em geral também não se encontra entre a bibliografia básica acadêmica ou
da história da filosofia, o que inevitavelmente nos faz pensar: por quê? Por
que devemos ler este ou aquele filósofo específico? Com que critérios é feita
essa escolha? É como se fosse impossível pensar sem ter lido Platão ou Kant.
Atenção: não se trata de negar a importância dos clássicos ou dos grandes nomes
da história da filosofia, mas de questionar até que ponto a arbitrariedade
dessa seleção poderia amputar o alcance possível das mais ilimitadas e ricas
expressões que o nosso pensamento é capaz de produzir... mas isso já é assunto
para outro texto.
segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014
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